Poesia encarnada
Como um quase total descrente nas ilusões religiosas e místicas, espiritualistas ou
esotéricas,desnudo-me em sangue e cinzas perante o que é festivo. Porque há
algo de tragédia no belo, e há algo de belo no que já se foi. Sei que escapo de
ilusões para cair em outras. Mas porque esta ilusão da poesia é mais doce e
bucólica, deixo-me ficar nas paragens da
casa em meio a lugar algum, deliciando-me com um café que não se equipara a
qualquer outro, e convido-a para se juntar a mim, ainda que sei que nos
sentaremos em uma mesa, frente a frente, e ainda assim seremos sós, cada qual
com seus mistérios e angústias.
Não há o que diga que as coisas necessitam ser como são. Sei
que foram acontecimentos fortuitos, evolutivos, biológicos, sociais e... Tantos
outros unidos... Acontecimentos que fizeram com que mulheres engravidassem e
não homens, que mulheres fossem mães e homens fossem pais, que cada qual
possuísse formas delineadas na história, na biologia, na cultura e na
sociedade. À rigor, neste deserto idílico onde me encontro e onde convido-a a
estar, não importa qualquer cultura, ainda que saibamos sermos constituídos,
mesmo que inconscientemente, por aspectos dela. O que importa é que mesmo nesta
tessitura social e histórica ambos somos seres autênticos, existencialmente
sós, mas ainda assim desnudos de forma a vermos, cada qual, suas cicatrizes.
Porque essas são nossas chagas, essas são nossos símbolos, essas são toda nossa
religião. A religião da dor, de um mar de sangue e lágrimas, de tempestades,
profunda escuridão, de mistérios, sofrimentos, solidão e luta. E assim, porque
desta forma somos, sabemos hoje o verdadeiro significado do belo. Sabemos
pintar em quadros o verdadeiro significado particular do que é existir no mundo
pelo tempo e através do tempo. Beba este café comigo, minha querida
companheira. Porque aqui estamos desnudos de qualquer título social. Somos
andarilhos da mesma estrada, transcendendo o próprio conceito do que é o tempo
e do que é existir, para então pousarmos ambos no pico nevado da existência e
vislumbrarmos os páramos astrais com ar de poesia, tornando-nos a própria
poesia encarnada no mundo.
Escrito para minha mãe no dia das mães de 2016.
Pietro Sanchini - Shintaro
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirEu adoro poemas, mas minha paixão sempre serão as prosas poéticas, a dança das orações haha. Houve um tempo que eu gosta dos versos, das palavras casando, rimando, mas hoje prefiro as prosas com suas frases dançando lá e cá e principalmente aquelas que nos mostram um pedacinho da nossa alma. Parabéns, Shintaro. Eu disse que inveja o Anjo, mas você não fica atrás, tinha esquecido do quanto você escreve bem, de como sua escrita é suave, delicada e sensível
ResponderExcluirMuito obrigado querido amigo. Suas palavras sempre bonitas me estimulam sempre. Todos aqui, cada qual com seu jeito de escrever, são grandes escritores. Inclusive você, viu? Mas aceito suas palavras com carinho e as guardo para aquecer o coração, pois esse carinho entre pessoas que se gostam é o que de mais valioso há no mundo.
ResponderExcluirGrande abraço
"Porque há algo de tragédia no belo, e há algo de belo no que já se foi" talvez não concorde com tudo o que escreveste mas concordo com isso... E como sempre, escreves de forma tão bela que dá-nos vontade de suspirar, parabéns amigo...
ResponderExcluirSenti o sabor do café. "Porque há algo de tragédia no belo, e há algo de belo no que já se foi" Não podia concordar mais.
ResponderExcluirTal como não existe alto sem baixo o belo também necessita do seu antónimo para existir.
A tua mãe é e será sempre uma senhora de sorte.
Queridas amigas Maira e Lenita. Para vocês vale o mesmo que disse ao nosso amigo. Sua estima e seus comentários são uma grande lisonja.
ResponderExcluirFico feliz que tenham gostado!
Grande beijo